terça-feira, abril 04, 2006

Responsabilidade Social das Organizações e ONG

Hoje em dia assistimos a uma mudança na cultura corporativa que se afirma cada vez mais. Conceitos como responsabilidade social das empresas, desenvolvimento sustentável, marketing sustentável saltaram quase de um dia para o outro para o léxico comum das empresas, dos jornais e da sociedade em geral, muitas vezes sem que haja grande consenso em relação ao significado de tais palavras.

Com uma tal mudança, muitas vezes há quem se interrogue em relação às reais intenções de quem de repente se apresenta com tão boa vontade. Em relação à intervenção social externa (uma das dimensões da responsabilidade social das empresas) pode-se ouvir de um modo mais elaborado, que as empresas só o fazem para manter o status quo ou, com uma linguagem mais corrente, porque pensam que podem ganhar mais dinheiro com isso.

No entanto, enquanto esta for a mentalidade dominante, perde-se o que é a verdadeira questão: é claro que ninguém, empresas, organizações ou particulares age de que modo for se pensar que perde dinheiro sem um correspondente aumento de valor. No entanto, o argumento que deveria ser usado pelas organizações (ONG, etc) para propôr às empresas apoio para os seus projectos –fazê-los perceber que podem ganhar com isso- é, ao invés, usado para desconfiar das suas intenções quando são elas as primeiras a compreender que há potencial de ganhos para ambas as partes.


Sair da mentalidade tradicional
As organizações sem fins lucrativos deviam ser as primeiras a incorporar, promover e incentivar esta mudança de cultura. A forçar este mercado, se ele não estiver tão aberto como faz parecer. Mas também a pensar na comunicação dos seus projectos, na transparência da sua contabilidade, na parceria de continuidade que implica fazer uma empresa apostar no seu projecto e poder ter que lhe explicar o que foi feito com o investimento obtido.

Acontece que a cultura que predomina nestas organizações, mesmo quando recebem donativos, é que não têm que dar explicações às empresas. E assim estas não podem avaliar se o seu investimento foi bem usado e se devem continuar por ali.

Depois há os preconceitos de estar a «comprometer»- leia-se vender, os seus princípios. Em países como o Brasil, com Estados mais fracos, esta cultura de parceria está muito mais desenvolvida. Por cá, para além de ser muitas vezes consensual que “o Estado tem de apoiar”, mesmo que se veja que até os serviços essenciais estão à míngua, vivemos duas décadas «à sombra» de fundos comunitários que reforçaram esta mentalidade. E agora que há outros países a desviar os fundos de coesão estrutural por parte da União Europeia e que se entende que Portugal já terá recebido o bastante para o seu desenvolvimento estar em curso, para onde nos viramos?

É claro que pode haver situações que oponham empresa e organização sem fins lucrativos. Ou que façam com que a segunda entenda que faz parte do seu papel questionar o seu apoiante. Aqui é evidente que ambos os actores devem manter a sua integridade e independência. O mais difícil é o apoiado equacionar o dilema entre perverter (mesmo que ligeiramente) os seus princípios ou deixar de contar com um apoio que pode ser estrutural para a sua existência. É uma prova de integridade que não está ao alcance de todos, mas ninguém disse que a vida do 3º sector é fácil...

A APSI, Associação para a Promoção da Segurança Infantil, IPSS, Associação de famílias e Entidade de utilidade pública, desde sempre contou com o apoio de empresas. Esse aspecto de angariação do apoio privado já estava na sua génese. Quando iniciou campanhas de promoção de segurança rodoviária infantil e descobriu material falsificado num fabricante de renome que anualmente lhe atribuía quantias consideráveis, não pôde continuar ao seu lado. Paciência...

Guess what? A responsabilidade social é para todos...
O sector não lucrativo tem a ingrata missão de coordenar lógicas se não antagónicas, pelo menos de áreas diferentes. «Gerir o social» sem deixar de parte nenhuma das duas vertentes. Não se pode pensar só nos destinatários da actividade sem precaver a continuidade do trabalho que se desenvolve.
No entanto a capacidade de adaptação é grande. Quando surgiram os fundos comunitários, teve de existir uma aprendizagem e reestruturação dos modos de fazer habituais para poder compreender a lógica das candidaturas para os projectos. Não será muito diferente o que se propõe na óptica da responsabilidade social das empresas.

Nos fundos comunitários, as organizações tinham que dar conta das despesas e da forma como decorriam os planos previamente enviados a aprovação. É natural que se os recursos forem provinientes de empresas esses procedimentos também estejam presentes.

No fundo, as entidades sem fins lucrativos também têm de ser socialmente responsáveis e transparentes (e nem todas o são, acreditem). Já o sabiam no que se relacionava com a União Europeia. Só que a verificação agora corre o risco de ser muito maior e mais próxima. E depois? Se essa for a via para a continuidade da sua intervenção?

Por isso, associações, IPSS, ONG e todos os que giram num mundo sem fins lucrativos, deveriam equacionar na sua atitude a existência de eventuais preconceitos datados, «de esquerda» -perceber, já agora, que apesar da expressão não há nada que as impeça de ter lucro desde que seja reinvestido na organização (em vez de distribuído como acontece nas sociedades)- e ponderar este mercado que está receptivo e com o qual os que têm mais a ganhar são aqueles que beneficiam das suas intervenções e a sociedade como um todo.

1 comentário:

Dr. Muerte disse...

q chistoso escribes susana es como un español mal ecrito