Um dos aspectos mais significativos no Chapitô, do meu ponto de vista, é o facto de inserir jovens desfavorecidos através de uma formação atípica, em artes circenses e não das tradicionais saídas profissionais de carpinteiro de limpos, pedreiro ou jardineiro que, tão dignas como todas as outras, têm no entanto o inconveniente de serem pouco aliciantes para os jovens. A intervenção social desenhada numa área periférica, de risco, tal como as vidas a quem se destina, tem uma forte probabilidade de adesão por parte dos seus públicos-alvo, assim como a potencialidade de estes futuros profissionais conseguirem vingar.
Essa projecção para o mercado de trabalho, alimenta outra particularidade do projecto, a sua estruturação. O envolvimento das três vertentes: acção social, formação e cultura, num círculo virtuoso contribuem para a continuidade e sustentabilidade do projecto. "O departamento [de Produção] insere-se no modelo de Economia Social praticado pelo Chapitô cruzando as áreas de Formação, Cultura e Acção Social: as receitas geradas revertem directamente para o financiamento de acções realizadas na Área Social e funciona como plataforma para os jovens diplomados pela Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo, assegurando a sua inserção no mercado de trabalho." Outra entrada de receitas são o restaurante e bar. "Com uma vista deslumbrante sobre o Tejo e a cidade de Lisboa, Restô, é a oportunidade de viajar, levado pelos aromas e os sabores de uma cozinha multi-étnica. Como pólo cultural da cidade de Lisboa, o Bar do Chapitô é um espaço aberto às artes, com uma programação variada ao longo da semana: desde música ao vivo, com destaque para o jazz, ciclos de cinema, projecções de vídeo, espectáculos de teatro e dança, a conferências e debates sobre temas da actualidade. O Bartô, é também um espaço privilegiado para tertúlias, lançamentos de livros e projectos editoriais, exposições e instalações."
Estando a formação ao abrigo do Ministério da Educação, enquanto Escola Profissional desde 1991, a maior lacuna ao nível dos financiamentos verifica-se nos muitos jovens institucionalizados em Centros Educativos, que se confrontam com grandes dificuldades quando, aos 17/18 anos, atingem a idade que os coloca legalmente fora do âmbito destas instituições. Nestas circunstâncias, não são poucos os que batem à porta do Chapitô. Para esta vertente da acção social o Chapitô foi um dos beneficiários do leilão resultante da Cow Parade, em 2006. Conseguiu-se recuperar e remodelar instalações que hoje servem de residência temporária a 10 destes jovens em transição. "Promover a autonomia do jovem, estimulá-lo para a construção do seu projecto de vida e ajudá-lo concretamente na superação dos obstáculos com que se depara, são os objectivos deste projecto."
Esta necessidade foi consequência da intervenção realizada pela Animação em Acção: um grupo de animadores/formadores e técnicos que assegura, nos Centros Educativos da Bela Vista e Navarro de Paiva ateliers de circo, capoeira, “faz-tudo”, jogos, etc. bem como a animação de festas e espectáculos e ainda a realização de saídas – culturais e recreativas incluindo a redacção de um jornal, num protocolo que se desenvolve desde 1987 com o Ministério da Justiça.
Também as crianças são um dos destinatários. O Centro de acolhimento infantil garante a guarda de menores até aos 12 anos durante o dia, serviço que é complementado com os ateliers infantis de circo e capoeira que decorrem ao fim da tarde para os maiores de seis. Os adultos têm a partir das 19 horas cursos variados como capoeira, malabarismo, sapateado, caracterização, expressão dramática e técnicas circenses.
As parcerias estratégicas são uma constante. 60% do orçamento anual da organização provém de financiamentos públicos, 35% de receitas próprias e 5% de mecenato e donativos. Ao Expresso, de 4 de Novembro 2006, Teresa Ricou dizia: «As instituições estão ancoradas em nós. Como prestamos serviço público, a Justiça, a Educação, a Cultura, a Segurança Social, o Instituto da Juventude e o Instituto de Emprego e Formação Profissional têm de estar aqui.» No entanto, em relação ao Chapitô Rio, o projecto cuja inauguração se prevê para o fim do ano, não adianta informações. 200 milhões de euros para um espaço adaptado a outras artes, de âmbito musical, como o rock, sustentado na mesma fórmula tripla (acção social, formação, cultura) podem justificar a presença da Super Bock no rol dos apoios presentes no site da organização (aliás, a única empresa a figurar, apesar de outras como a PT e a Vodafone fazerem alusão a parcerias com o Chapitô nos seus sites). http://www.chapito.org/