terça-feira, fevereiro 20, 2007

CHAPITÔ - 25 anos a fazer rir jovens desfavorecidos

Todos conhecemos o caso do Chapitô e da sua figura de proa, Teresa Ricou. De tão familiar, esta iniciativa da sociedade civil acaba esquecida das lides do terceiro sector, talvez injustamente ou talvez porque já conquistou uma posição de destaque e um reconhecimento institucional que lhe permitem caminhar por si. De qualquer forma, é um exemplo a ter presente.

Um dos aspectos mais significativos no Chapitô, do meu ponto de vista, é o facto de inserir jovens desfavorecidos através de uma formação atípica, em artes circenses e não das tradicionais saídas profissionais de carpinteiro de limpos, pedreiro ou jardineiro que, tão dignas como todas as outras, têm no entanto o inconveniente de serem pouco aliciantes para os jovens. A intervenção social desenhada numa área periférica, de risco, tal como as vidas a quem se destina, tem uma forte probabilidade de adesão por parte dos seus públicos-alvo, assim como a potencialidade de estes futuros profissionais conseguirem vingar.

Essa projecção para o mercado de trabalho, alimenta outra particularidade do projecto, a sua estruturação. O envolvimento das três vertentes: acção social, formação e cultura, num círculo virtuoso contribuem para a continuidade e sustentabilidade do projecto. "O departamento [de Produção] insere-se no modelo de Economia Social praticado pelo Chapitô cruzando as áreas de Formação, Cultura e Acção Social: as receitas geradas revertem directamente para o financiamento de acções realizadas na Área Social e funciona como plataforma para os jovens diplomados pela Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espectáculo, assegurando a sua inserção no mercado de trabalho." Outra entrada de receitas são o restaurante e bar. "Com uma vista deslumbrante sobre o Tejo e a cidade de Lisboa, Restô, é a oportunidade de viajar, levado pelos aromas e os sabores de uma cozinha multi-étnica. Como pólo cultural da cidade de Lisboa, o Bar do Chapitô é um espaço aberto às artes, com uma programação variada ao longo da semana: desde música ao vivo, com destaque para o jazz, ciclos de cinema, projecções de vídeo, espectáculos de teatro e dança, a conferências e debates sobre temas da actualidade. O Bartô, é também um espaço privilegiado para tertúlias, lançamentos de livros e projectos editoriais, exposições e instalações."

Estando a formação ao abrigo do Ministério da Educação, enquanto Escola Profissional desde 1991, a maior lacuna ao nível dos financiamentos verifica-se nos muitos jovens institucionalizados em Centros Educativos, que se confrontam com grandes dificuldades quando, aos 17/18 anos, atingem a idade que os coloca legalmente fora do âmbito destas instituições. Nestas circunstâncias, não são poucos os que batem à porta do Chapitô. Para esta vertente da acção social o Chapitô foi um dos beneficiários do leilão resultante da Cow Parade, em 2006. Conseguiu-se recuperar e remodelar instalações que hoje servem de residência temporária a 10 destes jovens em transição. "Promover a autonomia do jovem, estimulá-lo para a construção do seu projecto de vida e ajudá-lo concretamente na superação dos obstáculos com que se depara, são os objectivos deste projecto."

Esta necessidade foi consequência da intervenção realizada pela Animação em Acção: um grupo de animadores/formadores e técnicos que assegura, nos Centros Educativos da Bela Vista e Navarro de Paiva ateliers de circo, capoeira, “faz-tudo”, jogos, etc. bem como a animação de festas e espectáculos e ainda a realização de saídas – culturais e recreativas incluindo a redacção de um jornal, num protocolo que se desenvolve desde 1987 com o Ministério da Justiça.

Também as crianças são um dos destinatários. O Centro de acolhimento infantil garante a guarda de menores até aos 12 anos durante o dia, serviço que é complementado com os ateliers infantis de circo e capoeira que decorrem ao fim da tarde para os maiores de seis. Os adultos têm a partir das 19 horas cursos variados como capoeira, malabarismo, sapateado, caracterização, expressão dramática e técnicas circenses.

As parcerias estratégicas são uma constante. 60% do orçamento anual da organização provém de financiamentos públicos, 35% de receitas próprias e 5% de mecenato e donativos. Ao Expresso, de 4 de Novembro 2006, Teresa Ricou dizia: «As instituições estão ancoradas em nós. Como prestamos serviço público, a Justiça, a Educação, a Cultura, a Segurança Social, o Instituto da Juventude e o Instituto de Emprego e Formação Profissional têm de estar aqui.» No entanto, em relação ao Chapitô Rio, o projecto cuja inauguração se prevê para o fim do ano, não adianta informações. 200 milhões de euros para um espaço adaptado a outras artes, de âmbito musical, como o rock, sustentado na mesma fórmula tripla (acção social, formação, cultura) podem justificar a presença da Super Bock no rol dos apoios presentes no site da organização (aliás, a única empresa a figurar, apesar de outras como a PT e a Vodafone fazerem alusão a parcerias com o Chapitô nos seus sites). http://www.chapito.org/

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